Inovação tecnológica, sucesso do cliente e desburocratização no universo jurídico

Renata Galego

No ano em que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) completará 90 anos, a pandemia revelou e acelerou o surgimento de um cenário que já se descortinava: a premente mudança da advocacia tradicional.

A criação da OAB em 18 de novembro de 1930, por meio do Decreto nº 19.408, ocorreu no início da Era Vargas (1930-1945), trazendo expressamente em seu texto constitutivo “restrição aos direitos dos advogados e que, se privilégio houvesse, seria o da dignidade e da cultura”. Nessa linha, com as limitações impostas aos advogados (constitucionalmente tidos como figuras indispensáveis à administração da justiça), a posição cultural de prestígio já previamente associada aos doutores, aliados a processos burocráticos enraizados no país, fixaram um determinado perfil a estes profissionais que, mesmo após décadas, permanece acompanhando suas carreiras.

Desde a ditadura militar até chegarmos ao período democrático que vivemos, a Nova República, passaram-se 5 décadas - e é justamente nesse último período que surgiu a internet, mudando drasticamente a forma e a velocidade no acesso à informação. Quase tão rápido quanto o avanço tecnológico, foi a expansão do número de cursos e de bacharéis em Direito. Atualmente a OAB registra mais de 1,1 milhões de advogados no Brasil, que leva a uma média de aproximadamente 1 advogado para cada 190 habitantes.

Com tamanho avanço tecnológico, mudanças econômicas, políticas e no perfil de consumo, não há mais espaço para aquele advogado que fica à espera do cliente em seu convencional escritório.

Estamos vivendo a quarta Revolução Industrial e, como todos no mercado de trabalho, a advocacia também está sendo diretamente impactada, fazendo surgir a chamada Advocacia 4.0, cujo principal fator de influência é a evolução da internet e das ferramentas tecnológicas. Com a digitalização de informações, o uso de processos automatizados e uso de inteligência artificial, big data, machine learning, internet das coisas – IoT, entre outros, surgem novos modelos de negócio. Inversamente à ideia de máquinas substituindo o trabalho humano, a tecnologia vem como grande aliada, facilitando processos operacionais burocráticos e dando mais espaço para a estratégia jurídica.

Diante dos benefícios desse cenário, conquistando maior liberdade intelectual, torna-se necessário oferecer soluções ágeis e criativas para alcançar resultados eficazes. Contar com uma equipe analítica, que saiba gerenciar os dados somado ao conhecimento, uma cultura descentralizada e focada em um atendimento personalizado, são características hoje cruciais ao sucesso do negócio.

Dentre as novas abordagens que fazem parte da Advocacia 4.0, o conceito de Customer Success cai como uma luva! Garantir o resultado esperado pelo seu cliente, além de lhe proporcionar uma experiência surpreendente durante todo o processo, é imprescindível a todos que hoje atuam no mercado, inclusive aos advogados. Saber cuidar, ultrapassando limitações da área, deve fazer parte do fluxo da gestão de um escritório e isso significa conseguir identificar os perfis de cada cliente e atendê-los de maneira única. O foco no cliente e o acompanhamento de toda sua trajetória, preocupando-se com todos os passos percorridos até a entrega do resultado, tem conexão direta com a fidelização do cliente e consequente crescimento. É preciso ter claro os conceitos de CS, bem como um mindset dos colaboradores alinhados a estes conceitos.

Não menos importante que todos os pontos mencionados, está o enfrentamento às burocracias no universo jurídico. Com todos os progressos tecnológicos ligados à informação e proteção de dados, que seguem em expansão a toda velocidade, é de suma importância vencer as barreiras burocráticas legais e de trabalhos realizados por cartorários, garantindo maior celeridade e eficiência de procedimentos administrativos e judiciais.

A advocacia 4.0 já existe, não é só um “novo normal”, mas sim uma realidade; e esse mercado requer profissionais inovadores, atualizados e já engajados a essa nova cultura. A forma de se relacionar com os clientes é basilar para o bom exercício da advocacia, o que inclui a relação interna dos profissionais; saber dar o valor humano ao negócio é essencial, pois são essas relações que fazem tudo existir.